sábado, 24 de junho de 2017

Card. Beniamino Stella e o Dia de Oração pela Santificação dos Sacerdotes

“O Padre é um mediador entre Deus e os homens, não um funcionário que não suja as mãos” - REUTERS


Cidade do Vaticano (RV) – No dia do Sagrado Coração de Jesus, celebrado em 23 de junho, recorre o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, ocasião propícia para um tempo de oração e de comunhão entre os sacerdotes, além de uma oportunidade ímpar para redescobrir e reavivar o dom do sacerdócio.


Cardeal Beniamino Stella, Prefeito da Congregação para o Clero, em entrevista concedida ao L’Osservatore Romano com o título “Pecador e pescador”.


*OR: Qual é o significado deste dia?*


“Antes de tudo a possibilidade de um tempo de oração e reflexão que apresenta ao menos três aspectos. O primeiro é justamente a centralidade da oração; rezando juntos, de fato, os sacerdotes recordam que o seu ministério não é radicado nas coisas a serem feitas e que, sem a relação pessoal com o Senhor, se corre o risco de mergulhar no trabalho, negligenciando Jesus. O segundo aspecto, é a redescoberta do valor da diocesanidade, porque não se é padre sozinho, mas como parte da família do presbitério, e este dia convida os sacerdotes a reencontrarem a beleza da fraternidade presbiteral junto ao próprio bispo, renovando o compromisso a superar as divergências que frequentemente impedem aos sacerdotes viver a comunhão e de atuar juntos em âmbito pastoral. Por fim, por meio de momentos de reflexão e de verificação, o dia quer ajudar os padres a redescobrir a essência de sua identidade e o sentido de seu serviço ao povo de Deus”.


*OR: Seria possível delinear um modelo de pastor segundo o magistério pontifício?*


“Dirigindo-se aos sacerdotes ou falando de seu ministério, o Papa pouco a pouco, delineou lentamente um verdadeiro retrato do padre. E surge então o modelo de um pastor que caminha em meio ao seu povo, participa com a própria vida de suas vicissitudes, se comove profundamente pelas suas feridas e o unge com a alegria do Evangelho. Mesmo recentemente, o Pontífice expressou a sua preocupação maior: a de que os sacerdotes caiam na tentação de viver o ministério como um dever de ofício, como se fossem, isto é, “clérigos de Estado”, ou “funcionários do sagrado”; pelo contrário, o povo de Deus tem necessidade de um pastor que escute, acolha, acompanhe, que seja o bom samaritano para quem ficou ao largo da vida. Recentemente, o Santo Padre usou uma expressão muito forte sobre a figura do padre: “É um mediador entre Deus e os homens, não um funcionário que não suja as mãos”. O padre, segundo Francisco, é o homem da relação com o Pai e com as pessoas, ministro da compaixão que sabe consolar e guiar, que sabe fazer um discernimento pastoral em todas as situações e é capaz de acender pequenas luzes, mesmo naquelas existências ou naqueles contextos onde parece que tudo esteja perdido”.


*OR: O Papa recém visitou os lugares que tiveram como protagonistas dois padres “incômodos”, Padre Primo Mazzolari e Padre Lorenzo Milani. Que mensagem se pode tirar disto, para os párocos italianos de hoje?*


“Estas duas etapas, tão ricas de significado para a espiritualidade da Igreja na Itália, embelezam o retrato do padre delineado pelo Papa Francisco de que falava. Foi uma homenagem importante a dois sacerdotes corajosos, livres, animados por um autêntico espírito evangélico, que os tornou “incômodos” muitas vezes – e por isto incompreendidos – capazes de comunicar o Evangelho na “periferia”, mesmo aos mais distantes. Com esta dupla visita o Papa quis reiterar que “os párocos são a força da Igreja na Itália”, exortando a viver o sacerdócio naquela dimensão profética que nos faz “caminhar em frente”, também ao custo de ser, não logo ou não por todos, entendidos. Destas duas extraordinárias figuras de padres, colheria dois aspectos enfatizados pelo Pontífice e que podem representar uma mensagem importante também para os sacerdotes de hoje. Do Padre Mazzolari, o Papa recordou como amava dizer que o “padre não é um repetidor passivo e sem alma”, mas alguém que proclama a verdade por meio de uma “cordial humanidade”, fazendo dela um instrumento de misericórdia de Deus. Do Padre Milani, reevocou a paixão educativa e o empenho em “devolver a palavra aos pobres”, sublinhando que a raiz desta missão era o seu ser “um padre de fé”. Deste modo, o Pontífice descreve um padre que é um anunciador humano, cordial, misericordioso; e, ainda, “homem de fé sincera e não aguada”, para poder viver “uma caridade pastoral por todos”.


*OR: Diversas vezes o Pontífice falou sobre a necessidade de um caminho de formação e amadurecimento para os sacerdotes. Como realizá-lo?*


“Hoje se percebe de modo especial esta necessidade, realmente imprescindível, da formação dos padres, também eles discípulos chamados a seguir Jesus: devem ser plasmados pela sua palavra e configurar o seu coração àquele do Bom Pastor. É necessário trabalhar muito na qualidade do percurso que se vive nos seminários e sobre isto a Congregação para o Clero investe muita energia. Temos necessidade de seminários que sejam locais de crescimento humano, espiritual, acadêmico e pastoral; e temos necessidade de formadores preparados, que saibam oferecer aos candidatos a possibilidade de amadurecimento psico-afetivo e de enraizamento na oração, em um clima comunitário fraterno, capaz de fazê-los sair de si mesmos e de ajudá-los gradualmente a inserir-se no campo pastoral”.


*OR: Como superar a tentação do “sentido de derrota, que nos transforma em pessimistas descontentes e desencantados pelo rosto escuro”, como se lê na Evangelii gaudium?*


“O Papa Francisco mostra possuir, além de uma lúcida capacidade de leitura da vida pastoral, aquilo que poderíamos chamar a pulsação da vida: sabe, isto é, que na vida dos fiéis e dos sacerdotes podem existir momentos de desencorajamento, cansaço, frustração. O padre vive na própria pele a lógica do Evangelho, isto é, do reino que cresce como uma pequena semente ou um fermento escondido, em modo invisível, para além dos cálculos humanos. Por isto deve ter a armadura forte da fé e da oração, para que não interprete nunca a sua missão como o equivalente a um trabalho empresarial, baseado no lucro; deve chegar à confiança da escuta da Palavra e da colaboração ativa com os confrades e com os leigos, lutando contra todo o pessimismo e buscando ser criativo e dinâmico no anúncio do Evangelho. Como observou o Pontífice, quando um padre se deixa abater pelos problemas e pelas necessidades das pessoas, recebe o afeto e o amor gratuito do povo de Deus. E isto torna-se para ele consolação e antídoto a todo sentimento de derrota e de desencorajamento”.


*OR: Muitas vezes os padres se encontram diante de lapsos de fé. Como superar esta provação?*


“Existem regiões do mundo marcadas por um crescente secularismo, pela pobreza e pela injustiça, pelos conflitos étnicos e religiosos: ali é difícil testemunhar a fé cristã, e mais ainda viver o ministério sacerdotal. Às vezes se tem a impressão – como afirma o Papa na Evangelii gaudium – que se vai de encontro a uma “desertificação espiritual” e a um esfriamento do dinamismo da própria evangelização. Penso que o sacerdote, em tais contextos, deva antes de tudo, radicar-se em uma relação íntima e pessoal com Jesus, o qual, durante a sua missão, teve dificuldades, foi impedido e no final levado à morte. A ressurreição do Senhor dá a certeza interior de que, dentro de nossa fraqueza e do “escândalo da paixão” a qual frequentemente é submetido o próprio anúncio do Evangelho, resplandece o poder do amor de Deus. No encontro com os sacerdotes de Milão, o Pontífice recordou também que não devemos nunca temer os desafios: porque nos fazem crescer, nos salvam de um pensamento fechado e ideológico e, de uma forma ou outra, nos desacomodam. Na provação, eu diria, somos desafiados a parar, a retornar ao Senhor, despojando-nos de toda presunção, a buscar novos caminhos para o anúncio do Evangelho, saindo dos hábitos consolidados e da pretensão de já ter chegado. Assim, também um momento de provação pode revelar-se como uma ocasião de crescimento”.


*OR: Como convivem em um padre ou em um bispo a consciência de serem pecadores aos olhos de Deus e a consciência do chamado de Jesus para serem pescadores de homens?*


“Na dinâmica da vocação sacerdotal existe este paradoxo, bem visível no chamado dos apóstolos por parte do Senhor: quem é chamado nunca é um perfeito ou uma pessoa que tenha dons extraordinários, mas pelo contrário, Jesus se detém na margem do mar para dirigir-se a alguns simples pescadores e, pouco depois, a um cobrador de impostos. Um padre ou um bispo experimentam isto durante toda a sua vida; sentem que a exigência da missão a eles confiada é levada em frente porque a misericórdia de Deus vem em auxílio a sua fraqueza e às suas fragilidades; aprendem, a cada dia, a serem apóstolos, não por méritos pessoais, mas porque foram escolhidos pelo Senhor, que os chamou e os enviou. Os dois aspectos – ser pecadores e ser pescadores de homens, enviados a proclamar o Evangelho – não somente convivem bem, mas são também uma garantia para a nossa santificação: se tudo dependesse da nossa perfeição, logo nos esqueceríamos de Deus e nos tornaríamos soberbos. Há poucos dias, em uma homilia na Santa Marta, o Papa disse que não devemos maquiar-nos para parecer “vasos de ouro”, mas pelo contrário, devemos aceitar sermos “vasos de barro”; somente assim o oleiro, que é Deus, nos modela com amor e permite que, mesmo dentro de nossa fraqueza, resplandeça o tesouro do Evangelho, a ser levado ao mundo inteiro”.


(JE - L’Osservatore Romano)

domingo, 26 de março de 2017

Papa dialoga com sacerdotes e consagrados

Milão (RV) - O Papa Francisco se dirigiu à famosa Catedral da Cidade de Milão para encontro com sacerdotes e consagrados.


O discurso do Santo Padre consistiu em respostas a três perguntas feitas por um sacerdote, um diácono permanente e uma religiosa.

Respondendo ao sacerdote, Padre Gabriel Gioia, que lhe perguntou sobre a secularização e a sociedade multiétnica, multirreligiosa e multicultural de Milão, Francisco disse que uma das primeiras coisas que lhe vem em mente é a palavra “desafio”. Todas as épocas históricas, desde o início do cristianismo, foram submetidas a numerosos desafios, tanto na comunidade eclesial como na social:

“Não devemos temer os desafios, aliás é bom que existam, porque são sinais de uma fé e de uma comunidade vivas que buscam o Senhor. Devemos temer quando uma fé não representa um desafio; elas fazem com que a fé não se torne um ideal”.

Depois, referindo-se à realidade multicultural, multireligiosa e multiétnica, contida na pergunta do Padre Gabriel Gioia, o Pontífice disse que a Igreja, em toda a sua história, sempre teve algo para nos ensinar em relação à cultura da diversidade: as dioceses, os presbíteros, as comunidades, as congregações.

A Igreja é “una” nos seus aspectos multiformes. O Evangelho é “uno”. Não devemos confundir unidade com deformidade; é preciso, com a graça do Espírito Santo, fazer discernimento de tudo aquilo que nos conduz à ressurreição e à vida, não a uma cultura de morte.

Siga o link do discurso na íntegra


http://br.radiovaticana.va/news/2017/03/25/na_catedral_de_milão,_papa_dialoga_com_o_clero_e_consagrados/1301133

sábado, 23 de maio de 2015

O Chamado - Segue-me!


Como é belo o chamado, que o digam aqueles a quem foi dado (cf. Mt 19,11). Nestes dias de preparação para a vinda do Espírito Santo em Pentecostes e conclusão das festas pascais temos o Senhor confirmando o seu chamado a Pedro em alguns textos do Evangelho de João: Segue-me! Quantos vezes Jesus não teve que dizer isto a este Apóstolo de cabeça dura (Jo 21,19. 22), como, acredito, deve ter dito também tantas vezes a outros.
Segue-me! Segui-me no anúncio e convite ao Reino (cf. Mt 4,19); segui-me na hora derradeira de minha paixão e morte (cf. Lc 22,28); segui-me pelas alegrias da ressurreição confirmando seu amor... (cf. Jo 21,15-17).  Percebe-se que está próximo o momento de Jesus subir aos céus e não mais se fazer presente entre os seus amigos, mais uma vez diz: segue-me. As últimas palavras de João em seu Evengelho nos deixa certo ar de saudosa despedida, dúvida, insegurança - "o que vai ser deste?" (Jo 21,21) - mas o Mestre o confirma mais uma vez: tu, segue-me. Exatamente, penso, porque está para enviar o Espirito da verdade, o Consolador, aquele que traria novamente a alegria, a confiança, a novidade - o que exige sempre uma nova decisão e uma nova resposta.
A reposta ao seguimento de Jesus passa por estas e tantas outras exigências como as junto aos discípulos, exatamente porque dele também nos fez seus discípulos. Segui-lo é uma primeira resposta, mas que precisa sempre de novo ser re-confirmada e atendida. Segui-lo no seu caminho que se faz junto ao nosso (cf. Mt 28,20); segui-lo em busca do alto que deve ser nossa primeira investida (cf. Cl 3,1); segui-lo conformando nossa vontade a do Espírito Santo que nos envia ao chamar sempre de novo (cf. Cl 1,9).
Deixemo-nos envolver por este chamado, deixemos o Espírito fazer sua obra de transformação interior e exterior junto a nós. É ele quem conduz sua Igreja e a nós com seus dons, carismas e potência (cf. Hb 2,4) e respondamos com atitudes sempre renovadas no nosso sim ao chamado sempre presente de nosso Mestre e Senhor Jesus.
Vinde Espírito Santo e enchei os corações dos vossos fiéis.

Pe. Elênio de Barros Abreu

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A Formação Sacerdotal Presbiteral - Parte I

    A formação sacerdotal de nossa Igreja passa por um Seminário, isto, desde o século XVI, quando à Igreja precisou dar respostas às exigências daquele tempo de profundas transformações nos campos sociais, políticos e cultural/religioso. Mas como são os nossos Seminários hoje? Como se desenvolve a Formação Sacerdotal? Quais as tendências atuais no que tange a formação dos nossos futuros Presbíteros? Questões propostas a se desenvolver, embora o seja feito de forma livre sem muita pretensão histórico-científica exigida.
     A estrutura de nossos Seminários, como os conhecemos hoje, tem sua origem a partir do Concílio de Trento, uma vez que, com o alvorecer da reforma protestante muitos dos sacerdotes de então eram profundamente ignorantes; muitos eram formados a revelia de um bom estudo. Tratava-se mais de um "recrutamento" de homens, afim de desempenhar funções no altar ou nos cânticos da Igreja. E, ainda, o desânimo e a vida laxa os condenavam e levavam, ao mesmo tempo, à uma forte decadência (do clero e, consequentemente, do povo). Os estudos nas grandes universidades eram para poucos; muitas vezes, mais se desejava uma "carreira", posição, status - surgia a ideia do Alto Clero e do Baixo Clero. Além disso, a maioria dos sacerdotes saiam das grandes ordens que gozavam de maior estabilidade, muito embora estas também sofressem com suas crises (Franciscanos, Dominicanos, Jesuítas etc.).
  Em Trento, recusando-se seguir os protestantes no que diz respeito ao matrimônio de seus ministros e diante da necessidade de uma melhor formação de seus sacerdotes, instituíram-se o que vieram a ser chamados "viveiros" (seminários); haveria assim um clero genuinamente DIOCESANO, aos moldes SECULAR, como se distinguia do já conhecido clero REGULAR das grandes ordens que eram regidas pelas REGRAS (REGULA) de seu Fundador ou Instituição (Cf. Lorscheider, A. C. Cardeal).
     E este é um tema que poderíamos aprofundar: ainda há espaço para este termo - secular - ligado ao clero diocesano? Como identificamos este termo hoje e como correspondem nossos seminários a este termo?
   
    O tempo passa e os desafios se fazem sentir. O homem é envolvido pela lógica do tempo em suas crises e evoluções. E os Seminários não são diferentes quando precisam estar sempre preparados ante às insistências da evolução dos tempos.
     Preferimos evitar a palavra "adaptar-se" (aos novos tempos), pois vemos que preparar-se, dar respostas e, por que não, peneirar e ficar com o que é bom serem atitudes que nos ampara num bom caminho de adaptação, sem se reduzir a identidade e, tão logo, se perder junto à missão. Mas não deixa de ser uma tendência, na atualidade, essa ideia de uma "adaptação aos novos tempos".
     Penso que o termo secular ligado ao clero até tinha uma razão de ser, porém a criação dos chamados Seminários nos afasta dele. A criação destes lugares ou espaços específicos de formação, deu uma ideia de Convento ou Instituto de Vida Consagrada. Embora os sacerdotes, ali formados, como até hoje, são enviados para o "mundo", para o século numa missão especificamente ministerial/pastoral, porém o convite à vida interior continua; aliás, esta cultivada no Seminário. Portanto, a ideia de Consagrado persiste - trata-se de um homem de Deus - enquanto o sentido secular se afasta: percebemos no incentivo à vivência comum, à espiritualidade de comunhão e de unidade entre o presbitério e seu bispo, o que nos leva a pensar que o Seminário não apenas passou
     Mas parece que o termo - voltamos a ele - secular insiste em permanecer. O sentido do termo é exatamente o de estar inserido na realidade nua crua da vida cotidiana das pessoas, ou seja, participante das coisas do mundo, da história - no século: estar no mundo embora sem ser do mundo (cf. Jo 17,11) - a princípio, um sentido nobre, onde o presbítero diocesano até se explica: inserido na realidade paroquial dos seus paroquianos e até mais além: na sociedade em geral. Porém o termo, não só pelo termo, veio a sofrer alterações culturais profundas. Hoje muito se fala em laicização, secularismo, termos que foram se desenvolvendo a partir de um humanismo iluminista muitas vezes contrário à fé.
  Poddar irá definir que em certo sentido, o secularismo pode afirmar o direito de ser livre do jugo e ensinamento religioso e, ainda refere-se à visão de que as atividades humanas e as decisões, especialmente políticas, devem ser imparciais em relação à influência religiosa. Trata-se de ideia que pode sofrer muitas variações, porém todas bem próximas disso (Cf. Europa, Cristianismo e Secularização) O Papa Bento XVI mesmo, não se cansou em seu ministério de nos fazer este alerta a respeito do secularismo reinante na cultura atual e sua influência, sobretudo junto à degradação da fé.
    Eis a questão: nossos Seminários reclamam uma formação diocesana exigindo de seus formandos e padres, ao mesmo tempo, uma identidade, uma diocesaneidade. Mas tantas vezes procuram se organizar de modo demasiado secularista. Pois parecem não querer se desvencilhar da modernidade - e esta muitas vezes aos moldes do liberalismo -,  com certo receio de ficarem para trás, obsoletos. Há formas de organizações de nossos seminários muito deste jeito: abertomodernosem muitas exigênciassoft - secularizadoOs seminaristas mesmos nem são considerados por tantos como pessoas consagradas ou uma comunidade de consagrados, são livres!
    Volto à ideia do que desejou a Igreja quando no Concílio de Trento quis instituir os Seminários como lugar próprio de formação de seus Sacerdotes: uma Comunidade de Seminaristas que aspiram ao dom sagrado do Sacerdócio como vocação, guiada sob a responsabilidade de seu Bispo e cooperadores. Tão logo, não consigo pensar numa Comunidade meramente "passageira", mas sim numa Comunidade de Consagrados, desde já, uma vez que, neste momento ou período, já se é forjado no candidato a figura do Bom Pastor que se concretizará com o dom da Sagrada Ordem.
   Além disso, a própria caminhada seminarística supõe isto, uma vez que, também ela passa por etapas ou estágios sucessivos: recebimento de Batina ou veste litúrgica, ministérios; são chamados a aperfeiçoarem seu batismo ao consagrarem a vida pela oração, vivência comunitária, na castidade e continência perfeita em vista do celibato... ou seja, pontos que fortemente já os caracterizam como Consagrados.
     Portanto, trata-se de alguém separado do mundo para ensaiar uma resposta para toda vida. Sendo assim, percebemos que entre os termos secular e consagrados, na vida do vocacionado, se afastam cada vez mais, em tal realidade e tão logo numa concreta vida presbiteral.

Jesus, Bom Pastor e Maria, nossa boa mãe,
chamai-nos à vossa fidelidade.

Pe. Elênio de B. Abreu

domingo, 17 de agosto de 2014

O Processo Formativo à Luz da Conferência de Aparecida

No Documento de Aparecida, foi recolhido em seu número 278 uma orientação para o processo
 formativo daqueles que são chamados ao Sacerdócio. O Documento fala de cinco etapas. O Encontro (1), a Conversão (2), o Discipulado (3), a Comunhão (4) e a Missão (5).
     Neste processo percebemos que se trata daqueles que foram diretamente tocados pelo amor de Deus, e isto, a primeira vista, diz respeito ao Batismo recebido, o dom da fé que nos impele a aprofundarmos ainda mais este chamado que se estende pela filiação adotiva e o convite a santificação junto ao Filho de Deus; une-nos a Ele e apresenta-nos ao Pai, fonte de toda santidade.
     Mas isto não se realiza de forma adequada e inspiradora se não falamos aqui de um verdadeiro ENCONTRO com Jesus. A dinâmica deste Encontro nos leva a conhecer a Cristo, tê-Lo como Mestre, Amigo e Senhor. Pela fé este Encontro se enriquece, leva-me a perceber que não se trata de um mero encontro, mas de um ENCONTRAR-SE: encontro-me com Jesus Cristo, meu Mestre e Senhor em quem me realizo. Pela fé este Encontro enriquece aquele que se abre ao dom da graça e passa a perceber que este Mestre e Senhor não é uma figura meramente histórica, mítica mas de fato uma Pessoa, um amigo muito próximo. Neste Encontro, enfim, se pode tocar seu coração chagado, ressuscitado, glorioso, curador.
     Do encontro, podemos avançar mais. Para uma abertura à graça que pelo Espírito Santo transforma o nosso ser, é a graça da CONVERSÃO. Diz-se que a Conversão é constante, é uma volta frequente ao Encontro. O Catecismo, citando Santo Agostinho, diz que a Conversão se dá por duas águas: uma é água do Batismo e a outra das lágrimas da Penitência (um Sacramento de constante "conversão" - "confissão"). Aquele que um dia nos encontrou e chamou nos chama a ter um coração sempre aberto, aberto à mudar, aberto à Conversão.

     Depois de ser encontrado e de encontrar-se, não há outra resposta a ser dada, não há outro caminho a ser seguido: é tornar-se Discípulo. No Encontro vimos que o Mestre chamou alguns para estar com Ele, e mesmo depois de sua volta para à casa do Pai, continua a chamar, para o Seu Reino, para o Seu projeto de salvação (Igreja); anteder este chamado, fazer o caminho de DISCIPULADO ao lado do Mestre. Um Discipulado que se inicia e não tem fim enquanto estivermos neste mundo. No entanto não nos enganemos, é também um caminho que exige coragem. O Mestre não nos engana, é um caminho de Cruz; alguns não aceitam, rejeitam a cruz (como Pedro em Mt 16,23), mas o Senhor confia-nos à graça, ora por nós, porém não volta a trás: "quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, pegue sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Mas jamais nos abandona. Podemos sentir as dificuldades do remar contra vento: mas o Senhor está perto (Mc 6,48ss); podemos sentir medo porque o barco pode vir a naufragar: mas o Senhor está nele (Mt 8,24). Este é o caminho do Discipulado - de muitas cruzes e medos, mas com o Senhor sempre por perto a nos convidar: "Vinde, a sós, descansar um pouco" (Mc 6,31).

   É assim que o Senhor nos deseja, abertos à COMUNHÃO; à comunhão com ele, com sua obra; abertos à comunhão com o Pai, obedientes como o Filho; em comunhão com os irmãos, também redimidos e dentro da mesma missão, missão de amar a Deus e ao próximo onde, tantas vezes, coloco-me em missão. 
       Por fim, preciso estar aberto dentro deste chamado à MISSÃO. Não há chamado sem missão, assim como não há dom sem missão. Se somos chamados ao Discipulado o somos de fato para depois sermos enviados - em Missão - como discípulos-missionários do Senhor. 
      Olhando para Jesus tenhamos n'Ele o nosso maior modelo nesse processo formativo permanente.

Texto: Encontro de Formação para Seminaristas
(Propedêutico 2014)

sábado, 19 de julho de 2014

Sacerdote - Soli[t]ário ou Soli[d]ário

      Nestes dias o clero da Diocese de Campos esteve reunido para seu retiro canônico. Teve como pregador Dom K. J. Romer (Bispo auxiliar emérito do Rio). Numa das pregações falou do celibato sacerdotal e lançou uma interrogação: quem abraça o Sagrado Celibato é um solitário? E desenvolveu sua colocação na dimensão SOLIDÁRIA DO SACERDÓCIO.
      Trata-se de uma imitação do Cristo Virgem e Solidário. Jesus teve muitas mulheres ao seu redor, ao ponto das irmãs Marta e Maria darem a entender algo estranho das suas atitudes em relação a Jesus. Mas Jesus sempre demonstrou muita segurança em sua missão. Não deixava-se confundir. Jesus,  como sabemos, sempre demonstrou porque veio, sempre foi muito claro. Jesus sempre foi SOLIDÁRIO aos seus e à sua missão - e que missão!
      Assim se desenvolve e tem continuidade o seu Sacerdócio nos seus Ministros na Igreja sobre a terra; não se trata de um bando de "solitários" ou solteirões pertencentes à uma organização piedosa (lembrando um pouco o Papa Francisco), mas de alguém que trás esta dimensão do Cristo Sacerdote; precisa ser também SOLIDÁRIO em sua missão, desenvolver este Dom (Mt 19,11. 12d ) com e em "solidariedade" com e aos irmãos, sobretudo em relação às mulheres - que se abstêm.
      Na realidade atual é muito difícil a sociedade em geral entender isso:  para a populaça é uma loucura; para a psicologia, uma tortura; para outras linhas, atraso da Igreja. Mas para a Igreja e para aqueles que a ela ainda entendem como proposta de seu Mestre e Senhor, sinal de amor, obediência e doçura àquele que foi o primeiro a desenvolver este sinal no meio dos homens e das mulheres sem nada confundir e livre de interesses outros, como puro sinal de SOLIDARIEDADE com a humanidade que Ele tanto ama.
      O sacerdote é chamado a desenvolver este dom, desde o seminário, lugar dos primeiros contatos com o Mestre que nos convida a imitá-Lo mais de perto.

Ah, só mais uma coisa: o Rio de Janeiro continua lindo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O Sacerdote no Ano da Fé

      O que uma resposta vocacional pode dizer da fé? A resposta a esta pergunta pode parecer óbvia, mas em muito coopera aqui com este ano que é dedicado à fé.
      Parece claro que a fé vem antes de qualquer interrogação ou resposta; se a levamos em conta como um dom, então, tudo se esclarece. Uma interrogação! Por ela todo sacerdote um dia passou e sua resposta, mesmo ante dúvidas, o coloca dentro de uma lógica nova, na lógica de quem o interroga. Aqui nos aproximamos da fé. Como dar uma resposta tão grandiosa e, ao mesmo tempo tão exigente senão pela fé.
      A fé se desenvolve. Ganha peso com nossas decisões. Exige-nos cada vez mais e percebemos, ao mesmo tempo, que não estamos sozinhos em nossa peregrinação. A fé ganha, ao fim de tudo, esta importância: um consolo "sem ao certo saber de onde"; uma força que se manifesta, acima de tudo na fraqueza, como nos lembra São Paulo; uma experiência de mistério que cada vez mais nos impulsiona a novas respostas, sempre que diante de novas exigências. Como conclusão: é Deus quem age e faz - Cristo, Sacerdote eterno do Pai.